sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Earl Palmer


Você toca bateria? Não?

Aí vai a sua primeira aula...

Conte até quatro: 1,2,3,4. Agora substitua isso por “Tum, ta, Tum, ta”, ou bata pé, mão, pé, mão... Se quiser incrementar bata a mão esquerda (caso seja destro) no 2 e 4 e deixe a direita marcando os quatro tempos enquanto o pé continua apenas no 1 e 3. Isso seria algo como bumbo (pé), caixa (mão esquerda) e chimbal (mão direita). Pronto! Está aí! Você já está tocando bateria.Existem milhares de músicas em que a levada é apenas essa. É um ritmo básico muito comum em músicas pop, baladas, rock... Minha primeira aula foi algo parecido com isso. Quando ensino alguém pela primeira vez, é isso que faço. Sempre me pareceu muito óbvio, um ritmo simples, algo quase que intuitivo. “Certamente foi assim que tudo começou na bateria”, pensava eu. Estava errado. A bateria é um instrumento de origem estadunidense. Nada mais é do que a junção de vários instrumentos de percussão num só a fim de permitir que uma pessoa apenas faça o trabalho de várias. Pensando assim, já podemos ter uma vaga idéia do quão complexo isto é. Mais complexo ainda se pensarmos que, em se tratando de Estados Unidos, os primeiros estilos musicais surgidos não foram baladas pop ou rocks explosivos e sim toda aquela bagagem cultural advinda da África e da Europa e que por lá acabou resultando em coisas como o Blues e o Jazz. Só depois viria o Rhythm and Blues e o Rock e, aí sim, uma levada na bateria como essa que apresentei.

É engraçado quando nos damos conta da origem, ou história das coisas.

Hoje no Distrito Federal há uma enorme estrada sendo construída ligando a cidade de Taguatinga com o Plano Piloto, chamada Linha Verde. Me pergunto se o meu filho, quando estiver mais velho, irá conseguir imaginar que antes dessa estrada chamada Linha Verde havia uma outra bem mais estreita chamada de EPTG ( Estrada Parque-Taguatinga ) e que bem antes dela sequer havia Taguatinga, ou Plano Piloto.... Tudo é construído. Não só estradas, cidades, mas pessoas, personalidades, visões de mundo e maneiras de se tocar um instrumento. O que você herdou dos seus pais? E dos seus amigos? Será que alguém, ou até mesmo algum livro não influenciou você e suas atitudes? Não contribuiu para colocar mais um pedacinho de tijolo ou grão de areia na sua história? Não ajudou a construir a sua maneira de ser? Na bateria uma pessoa ajudou, e muito, a como entendermos e tocamos o instrumento. Seu nome foi Earl Palmer (1924 – 2008).

Earl Palmer foi um dos responsáveis por transformar os sinuosos e swingados caminhos do Jazz numa autoestrada plana e reta para o Rock’n’roll. Não foi o único, mas certamente o baterista que tocou com Fats Domino e Little Richards, entre tantos outros artistas (acredite, a lista é interminável), foi o mais emblemático entre todos. O peso de sua importância se mede justamente pelo exemplo que descrevi acima. Antes a bateria passava longe desse tipo de levada. Escute qualquer coisa de Jazz e você perceberá que não existe uma marcação tão explícita na caixa como essa nos tempos 2 e 4. Essa marcação recebeu o nome de backbeat. Além dessa simples marcação, várias outras coisas relacionadas ao modo como tocamos bateria no rock/pop hoje se devem a esse músico excepcional.

Como muitos dos gênios em suas áreas, Earl Palmer ficou pouco conhecido do grande público. Sua excelência no instrumento acabou afastando-o dos grandes palcos e turnês e ele acabou se tornando um músico de estúdio. Muitas das trilhas sonoras de desenhos animados da Warner Bros. foram executadas por ele. Sem dúvida alguma a música deve muito a este baterista que contribuiu de forma significativa para formar a estética do que hoje reconhecemos como música popular.

Salve Earl Palmer!

Nenhum comentário:

Postar um comentário