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quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Breve, o novo álbum da banda Rioclaro!


O novo álbum da banda Rioclaro "Gringo!" traz uma história fragmentada, com narrativa baseada em lembranças de velhos filmes italianos, imaginações fictícias e personagens reais. O tema principal, a América Latina, está envolvido em todas as ações vistosas do CD: na incursão da poesia de Galeano, de Guimarães Rosa e Drummond, nas imagens de longos planos sequencias do voo do Condor sobre o altiplano andino.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Rock'n roll heaven (Uma crônica)




1. No começo da viagem, propósitos claros. Mas, com o seguinte cuidado: você pensa que está no controle da situação quando o assunto é a sua mente. Um pouco mais de atenção vai te mostrar que a mente é uma parafernália de motos-contínuos independentes e quando você entra num desses movimentos... Bem, isso é o que entendemos por cotidiano, essa banalidade orquestrada por detalhes extravagantes. O pôr-do-sol mais bonito que eu vi foi a bordo de um avião: as nuvens brancas tão retilíneas e contínuas – como se voássemos sobre um continente de vapor branco.
2. Na entrada do espetáculo tudo voltado para nos lembrar que sonhamos por dentro de um grande animal holográfico projetado pelo dinheiro. Animal que regurgita robôs sanguíneos, que expele o desejo como se vomitasse algum alimento mal digerido. Nada tem sabor, nenhuma sensação: tudo representa algo e esse algo é a coisa mais insossa, inodora jamais inventada. A luz dos holofotes parece dar vida a uma pasta cinzenta. O que chamamos de mundo.
3. Eu e meu irmão, apesar disso, vamos realizar um sonho: ver o Lynyrd tocando ao vivo. O Lynyrd possível. Boa parte dos caras morreu: queda de avião, acidente de carro, ataque cardíaco, maldição dos anos Karetas, enfim. Vai ser um dia dedicado à amizade celebrando estilhaços do rock’n roll. Aliás, não só nesse dia, sempre é como se uma bomba de babaquice tivesse explodido sobre o mundo e os estilhaços dessa bomba tivessem danificado a parte de nossos cérebros onde a liberdade e a alma se refugiavam. Gaguejamos liberdade e de vez em quando vemos estilhaços de alma brotando entre nossas palavras (geralmente, só mesmo por música). Até por isso não entendemos porque alguns fãs levam a bandeira dos confederados ao festival: subserviência? Esse lado da banda, que por vezes vai gritar no imenso painel luminoso atrás do palco: é melhor não ver. Viemos aqui por causa do rock, do blues, da força e da simplicidade das músicas de Ronnie Van Zant. É assim que a máquina abusa da própria voz e no dia seguinte está rouca, quase muda, de tanto gritar. Um dos motos-contínuos da mente é esse: jogar de volta na cara do mundo algumas doses de raiva, revolta, sensibilidade, emoção bruta (apontar o dedo para o céu bêbado e lembrar que tudo que existe é sagrado – Citação anacrônica? Não vejo motivo para Adam Smith ser mais longevo do que William Blake. A frase virou clichê? Não se você entra no circuito sagrado de tudo o que existe se deixando explodir com os estilhaços da alma e da liberdade). Isso está on the Road demais pro seu gosto? Chega!
4. Por vezes é como se eu andasse com uma bomba-relógio no bolso – é tenso. Nunca vi ninguém arrumar tanta confusão e em tão pouco tempo fazer amizades repentinas justamente com as figuras com quem acabou de quasebrigar quanto o meu irmão. Parece um ritual: quem sobreviver e souber que não é para ele os insultos, passa de fase. E não se trata de insultos propriamente ditos, comuns, mas blasfêmias sobre querer ser tratado como as outras marionetes, sobre pizza com e sem orégano e o abuso do molho pomodoro. Gritar sobre o amigo que caga em todo boteco que entra, observar como Peter Gabriel começou no Genesys e acabou no Apocalipse. Tem muito maloqueiro nessa festa.
5. A amizade, contudo, começa quando aos irmãos e sua fraternidade de sangue circulando entre o noturno e o diurno, vida e morte revezando-se como Cástor e Pólux, soma-se um terceiro. Um encontro inesperado cuz the Candyman is in town. As luzes coloridas que vêm do palco batem no muro de metal que cerca a área vip e rebrilha nas lentes escuras de seus óculos. O paraíso em gotas envolvido num plástico. Então, os três (e o número 3, quando as formas têm potencial, quando os caminhos se dividem em me todos, o círculo intangível do nascimento), então, os três caminham enquanto esperam, em conversas não menos absurdas esperam, e caminham. E às vezes param: onde era mesmo que estávamos indo? Ao show do Lynyrd, lembra?
6. Aos Amarelinhos, só uma coisa a dizer: Perderam, malucos! Algumas sensações foram oferecidas em sacrifício, é verdade, jogadas no asfalto e esmagadas nas poças de chuva e mijo. Mas, passamos por vocês e vocês não nos ganharam. E não foi por falta de esforço, diga-se. Fomos rastreados, vigiados, controlados. Um Amarelinho chegou a se aproximar de mim e farejar como se ele fosse um cachorro na alfândega de um aeroporto e eu fosse exatamente isso: uma mercadoria a ser contrabandeada, apropriada pelo Estado e revendida pelos circuitos extra-oficiais da corrupção policial.
7. É preciso saber o óbvio, que isso aqui não é Woodstock? É uma versão limpa, organizada, normal como Peter Gabriel usando passagens da Nona Sinfonia (“lovely lovely Ludwig Van”) para compor algo no estilo Tenya e trilha sonora da Pequena Sereia. É como se ao invés de álcool e drogas, os jovens românticos do rock tivessem morrido por excesso de anestesia. Mas, também é bom lembrar que nem Woodstock foi tão Woodstock assim. Aquilo aconteceu, apesar do objetivo primordial de tudo: fazer dinheiro.
8. Escapamos atravessando as estruturas montadas com corpos mutilados de jovens anestesiados, seguranças sádicos e empreendedores culturais, e chegamos ao momento. Chega a ser estranho tanto esforço por uma coisa tão simples, uma música tão simples quanto uma conversa entre um menino e sua mãe sobre a importância de ser simples. É que essas coisas não são dadas de mão beijada e o Absoluto pôs o dinheiro e o policiamento no caminho para nos lembrarmos disso: a simplicidade custa esforço. Precisamos do contraste: auto-ajuda, que seja. A sofisticação não passa de outro engodo: Peter Gabriel, você sabe. Johnny Van Zant dedica Free Bird a todos os que estão no paraíso do rock’n roll: e quando a música explode por dentro de nossas cabeças como se tapássemos os ouvidos e falássemos com uma voz estranha, só por curtição, é como se o sonho rompesse as travas do sistema (as bocas que falam sobre e são o sistema, esse véu inexistente que cobre o mundo e interdita) e atravessasse inclusive as nuvens pesadas e cinzentas que pairavam sobre o mundo naquela hora – o sonho subindo mais alto a bordo de um avião conduzido por um piloto alucinado que decidisse subir sem parar para além do limite suportável pela máquina. É como se o sonho rompesse tudo e descobríssemos, para logo depois esquecermos: que as coisas têm coração.
9. Na volta dois maltrapilhos, dois mendigos de sensações com restos de alucinação espalhados como migalhas na mente, fedendo a mijo, cachaça e pizza, orégano e pomodoro entram no avião. Uma turbina quebrada e o vôo foi adiado. Mas, depois de idas e vindas, chegamos em casa. Por enquanto, parece que o mundo voltou ao normal. No dia seguinte me lembro de um poema de Leopoldo María Panero que traduzi assim:
Não temos fé
do outro lado desta vida
só nos espera o rock and roll
me diz a caveira que tenho entre as mãos
dança, dança o rock and roll
para o rock o tempo a vida são miséria
o álcool e o haxixe não dizem nada sobre a vida
sexo, drogas e rock and roll
o sol não brilha por causa do homem
o mesmo para o sexo e o rock e as drogas:
a morte é a buceta do rock and roll.
Dance até que a morte te chame
e diga suavemente vem
entre no reino do rock and roll.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

um quê de blues: são tantos os motivos pro amor não dar certo

São tantos os motivos pro amor não dar certo. A começar pela absoluta imprecisão sobre o que significa dar certo (a medida do sucesso é tão burocrática (e a burocracia interdita

o amor)). Vejo as ruas desta cidade perigosa, a noite caindo como um estranho dourado sobre o céu azul, um pastor evangélico e uma ex-atriz vociferando contra

o amor e como eles merecem o aplauso do cara solitário que leva sua caixa de cerveja pro apartamento onde vai passar o feriado de corpus christi tocando

punheta sobre o amor, indefeso amor. O cheiro de tiner que sentimos ao ler o jornal e como se dizia antigamente os caras só querem meter

a faca e como o amor é celebrado, as frias flores tristes na vitrine e o que significa ser feliz, usar a buceta da mulher amada pra estourar

pipocas enquanto a cerca elétrica mata pássaros e meninos e um anjo

caído queima um bilhete premiado no canal de esportes. E nem tudo é questão do lado de fora, ainda trazemos o veneno, veja como quando você respira se engasga todo com os sapos que vomitam em sua garganta e mesmo que não queira ou acredite deve prestar contas porque se a felicidade é exigida junto com o amor a Alegria e o amor são interditos e não há nada de mais ridículo do que um professor apaixonado se perguntando onde ela está onde ela está com esse monte de citações encobrindo o seu corpo sagrado

amor.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Minha conversa com John Fante

Minha conversa com Fante


Neste ano desci duas vezes ao inferno. Descer talvez não seja a melhor palavra, porque o inferno não está abaixo da superfície, no porão do mundo, o inferno é apenas um certo ritmo da vida, uma desorientação fundamental que procuramos esconder sob o véu da realidade. Deixar o inferno subir até você tem um teor libertário, você não é uma presa fácil da realidade e seus artifícios. Por outro lado, o inferno é irrespirável: pensei numa imagem assim, uma sede de quem comeu girassol em pó e pra quem a água se tornou tão imaterial quanto o ar. Quem conhece o inferno precisa de três coisas (todos precisam, mas quem conhece o inferno precisa com mais intensidade): amor, amizade e arte. E aí entram os shows da Banda RioClaro neste ano. Um, em especial, num domingo seguinte ao dia em que eu pensei que queria dormir por uns 10 meses. Estar acordado pra certos encontros da vida é um primeiro passo: o encontro entre uma certa tonalidade do céu de vermelho a azul contra o lago quase dourado e a música que anima duas meninas, duas pequenas dançarinas sobre a grama intensamente verde. Depois de estar acordado, despertar. Iluminar-se. Respirar. Enfim, por isso resolvi escrever, como agradecimento, essa conversa imaginária com John Fante, seguindo uma dica do Ray (um puro devaneio, sem pretensão, não finjo dar conta de um nome consagrado, um livro que esmaga aqueles que tentam copiar o seu estilo, enquanto escrevo isso em meu computador empoeirado).

Eu: Tenho alguns textos, umas coisas meio parecidas com livros, vou soltando meio aleatoriamente porque não tenho essa convicção que vejo em você sobre duas coisas: o meu talento literário e o sentido de ser alguma coisa na vida como um escritor. A minha dúvida é: existe algum lugar adequado para os livros?
Fante: O deserto.
Eu: As cascas de laranja jogadas no chão, as velhas solitárias, os casais brigando, as crianças que nascem a contragosto, os taxistas; isso tudo não é estética, certo?
Fante: São sinais, indícios de alguma coisa parecida com salvação.
Eu: As coisas estão cheias de anjos, ouvi dizer.
Fante: Eu preferia bons charutos, uma noite com aquela mulher de pele cor de raposa, eu preferia ser o autor.
Eu: Isso você conseguiu, ser autor. Tem até seus porta-vozes oficiais e imitadores.
Fante: É uma ironia da história.
Eu: Uma mentira, e não um desejo. O sujeito começa a se levar a sério.
Fante: Do mesmo jeito, o dinheiro é bom porque liberta, mas dinheiro deve ser amado apenas platonicamente.
Eu: Também li isso em algum lugar. Também ando em torno dessa questão do amor, do amor que só faz sentido pra quem é solitário, os momentos de brilho intenso, sempre passageiros, uma recordação depois da outra, até um ponto em que tudo mal se inicia e já é despedida. A memória cansa mais do que a esperança.
Fante: De vez em quando, interrompo as divagações inventando uma perspectiva diferente, por exemplo: um rato observando um escritor debruçado sobre a poeira, sonhando com sua maravilhosa namorada mexicana. Isso dá mais densidade pra realidade, mas também indica que o tempo não é só esse em que estamos presos, esse apocalipse sem fim.
Eu: Aquela princesa que não vai se importar com o fato de você não ser um vencedor, aquela que foi menosprezada como nós. Palmeira, palmeira, palmeira, palmeira. Dois dias seguidos?
Fante: Acreditar em palavras é a pior forma de loucura.
Eu: Alberto Caeiro, Zaratustra (que é melhor do que Jesus), Bandini, muitos dos melhores sujeitos dos últimos tempos são fictícios.
Fante: A realidade asfixia. Mas a ficção não é mentira, não é o oposto do real porque é desejo.
Eu: Nesse sentido é que eu queria entender de anjo. Um anjo me trazendo uma boa garrafa de vinho. Pra te dizer a verdade, não me interesso pela literatura. Acho isso meio bobagem. Não quero um livro que não seja um bilhete premiado pra reinventar o desejo por uma boa namorada e um bom vinho.
Fante: Devaneios. Deus devia ter lido Nietzsche antes de criar o mundo.
Eu: Quando o Bandini diz que poderia ser qualquer coisa, um milionário, um jogador de beisebol, um escritor, eu, diferente de muita gente, acho que é a sério. Ele poderia ser qualquer coisa mesmo, e por extensão, você. Mas você não é Bandini, do mesmo jeito que ele não é o jogador de beisebol. Ele e você e eu somos o que poderia ser qualquer coisa dessas, pessoas comuns. Essa é toda diferença, que acho que alguns confundem quando pensam que fazendo de conta que são Bandini (por exemplo, reclamando da falta de grana) vão virar John Fante. Eles se esquecem, acho, que tudo é possível, incluindo Zaratustra e Caeiro, por conta desse poder ser mesmo, são prisioneiros do ser. Uma coisa é um cara que aspira a ser milionário, outra é o que é milionário, que se confunde com esse papel, a mesma merda rola com o sujeito que se convence que é escritor.
Fante: Eles não reconheceriam um gigante nem que um moinho de vento estivesse indo pra cima deles com tudo.
Eu: Falando em Dom Quixote, a falta de grana transforma o dinheiro numa coisa metafísica?
Fante: É estranho você dizer isso, parece papo acadêmico, porque é uma metafísica que dói no estômago.
Eu: É como se escrever fosse uma coisa suja, uma dedicação a uma atividade até ofensiva, como, por exemplo, procurar beleza e encantamento numa cidade por mais sórdida que ela seja, e você precisasse de um álibi razoável do tipo: escrevo, mas com uma finalidade, ganhar dinheiro.
Fante: Pode ser, mas a falta de grana é real, no meu caso. A vida é a continuação da literatura por outros meios.
Eu: É que a poesia separada do resto é uma coisa sórdida.
Fante: Que resto?
Eu: A vida.
Fante: Por isso eu odeio cadernos culturais.
Eu: Você imaginava que ia ser usado como pretexto pra um tipo exibicionista de literatura confessional?
Fante: Seja como for, eu não tenho nada a ver com isso. Eu não disse que prefiro Zaratustra a Jesus ensangüentado na cruz?
Eu: E a culpa que corre no seu sangue? Eu, por exemplo, depois de um ano de merda, estou começando uma nova história, um novo amor. Às vezes me flagro pensando que essa história toda vai dar merda, vai dar merda, vai dar merda. Mas não sei se faço isso só pra não perder o orgulho quando der merda, eu dizendo: pelo menos eu sabia que ia dar merda.
Fante: Você não viu pra quem eu dediquei meu livro? To falando de mim, não do Bandini. Tem gente que confunde experiência com experimentação. Experimentação é coisa de sociólogo, gente sem imaginação ou sentimento. Experiência é outra coisa. A vida pode dar um romance, mas a vida não é arrumadinha como um romance. Ou você vive o seu tempo, a sua condição e mergulha nisso, ou vai fazer outra coisa. Caso contrário, todos os roteiros estão traçados pelo conjunto de lixo que você leu e ouviu. Inclusive o meu livro pode virar lixo numa situação dessas.
Eu: Camisa pólo, sapatos brancos e óculos escuros, não é por aí? Nunca fui a Los Angeles e o que me impressiona é a variedade e o número de formas de destruição da cidade. Terremotos, maremotos, animais selvagens perdidos devido à expansão das avenidas, especulação imobiliária, um ar meio apocalíptico que torna a beleza mais urgente, a vida sempre está logo ali, a um passo, mas nunca é real porque sempre está à beira da morte.
Fante: Você não devia se gabar disso, você é de Brasília. Você deve entender alguma coisa de deserto. Poeira também não falta, cada palmo de terreno conquistado à moda turbulenta do velho oeste, tempestades de areia cobrindo a cidade inteira, o céu vermelho, azul de sanguessugas, branco, translúcido e você ali sozinho, debaixo dessa luz que nunca está parada, afundando nos monumentos paranóicos, você também ali sonhando com a sua princesa maia ou pelo menos acreditando que um dia vai encontrar a palavra certa, o percurso que vai fazer da poeira e do brilho uma coisa só, ao mesmo tempo bela e decadente. Que vai dar um pouco de alegria para os solitários e perdidos.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Ano Novo? Oração pra amanhã e pra noite que se aproxima

Escrevendo como um louco pra tapar os buracos. Este vazio na boca

do estômago. Nascemos num mundo sem deus e a luz é abundante, mas insuficiente pra aquecer nossas almas congeladas de pavor. Oito-Olhos é apenas alguém que acredita no mundo e na vida, atravessa todos os túneis e considera a morte, a sua meu amor e a de todos outros, um fato consumado. Entrevejo anjos se dissolvendo nessa luz fraca pra aquecer nossos corações, mas forte pra destruir o tênue fio do desejo. Como o desejo é forte pra me fazer sentir que sou apenas um e um é pouco e o tempo não é curto é apenas fechado, uma sala de paredes que se fecham sobre você e você quer saltar fora do tempo. Como o desejo é fraco pra dar conta de tudo isso, o desejo nada pode contra essa luz opaca e frágil e ainda assim somos mais frágeis que ela e mais frágeis que o desejo. Quais são seus planos pra esta noite? Pra amanhã? Alguma viagem impossível, um reencontro: o tempo não se deixa enganar. Preenchendo o vazio

de sentido com palavras. E como as palavras são fracas, ainda mais fracas que nós, mais fracas que a nossa voz, onde elas deslizam e se dissolvem, à luz fraca do dia. E como você gostaria que as coisas falassem, não só as flores, que tudo falasse, ao menos seria menor a solidão. Mas nada fala, tudo é rumor. Tudo é desordem e as pessoas tentando se esconder disso dando ordens. Nós também não falamos, apenas tentamos tapar os buracos com palavras. Alguma ação que me faça esquecer que o universo é surdo que estamos sozinhos que a luz é forte pra meus olhos, mas fraca pro meu coração e que a luz também não diz nada. O presente é frágil, a vida é frágil, cada gota de alegria é frágil e no entanto a memória é ainda mais frágil e o medo é maior porque é a forma de lucidez que resta pra habitantes cegos de um mundo vazio

e como todas as noites rezo (pra quem?): só mais um dia, mais uma noite, mais um dia, mais uma noite, mais um dia de alegria é o que peço ao Acaso que nos persegue no claro intuito de criar mania de perseguição & delírios coletivos. Acreditar em palavras é a pior forma de loucura. Ainda assim rezo e entrego aos deuses, sejam quais forem, ao asfalto, às luzes, às armas de fogo, às mesas, ao entardecer vermelho da cidade meu pedido solene: só mais um dia, mais uma noite de alegria.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Uma bela festa country

Elton, Renata Varella, Fred, Keyla Montenegro, Rony Estrada e Flamel. O prestígio da presença dos amigos da UCS

Renato Faria, Fabiana e Paulo Steel

Oa amigos Léo Cowboy e Boi

Carol e Camila as Botequeiras



Elto e Wiliam





Tocando Johnny Cash

"... Enquanto hoje, o sol vai baixando, as nuvens de dourado a vermelho, a música sopra o espaço que se infla como um balão. Há reflexos na água, bronze de fim de tarde. Duas garotinhas dançam no campo de futebol, o gramado verde, os vestidos branco e vermelho contra a encosta matizada de verde a cinzanegro. Depois de embaralhar a consciência, as coisas se misturam, as cores, a música não vem do palco em que meu irmão toca, salta do lago depois de um mergulho, música viscosa que preenche o espaço como um aquário. Não sei bem quando, meu irmão vem e me pergunta se estou acordado. Desperto, ele quis dizer, talvez. Iluminado. Não neste momento, agora estou apenas sentindo os impactos do mundo como se eu fosse uma engrenagem a mais. A alegria entrando pelo ouvido, passando do coração aos olhos, às cores, ao som, ao espaço...."
Daniel Faria

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

* * *

Luz noturna
Outro coração
Bate no seu peito

Um visitante
Inesperado
Bate à sua porta

Bate à porta
Da alma
Um coração inesperado

O seu inesperado
Coração
Bate à porta
Da sua alma

Lentamente
A luz diurna
Desperta para a ficção
Da vida

Você prepara o seu café
E estranha
É mesmo o seu coração
Que bate em meu peito?

Você olha a densidade
Das nuvens
É uma sensação estranha
Os milagres
E o inferno
São igualmente imerecidos

E ainda assim
Você tem medo
De estragar o fim da história.

sábado, 13 de novembro de 2010

Prosaico e confessional

Não posso mais errar
É incrível, mas neste ano de erros
Não posso mais errar,
Errante, eu conversava com um amigo
Sobre o céu
O céu que me enche de beleza e tristeza
Afinal aquela luz de branca a dourada
Entre nuvens de azul pálido a pálido violeta
Iluminava o letreiro do supermercado
Eu comprava limões e pensava em você
É o cúmulo da banalidade, errando
Entre as prateleiras e se usamos
A palavra beleza pra este céu em expansão
Isso deve ter algo em comum
Com seu sorriso que ia e vinha
Pálido na minha mente, enquanto eu errava
Distraído entre as prateleiras.
Não posso mais errar, moça
E ultimamente preciso estar derrubado de sono
Pra conseguir dormir
E quando acordo ainda estou meio sonhando
E sinto que posso exagerar tudo
A máquina que deu tilt tende a se repetir
Se repetir se repetir e não posso errar
E se você tivesse me procurado
Por outro motivo, é tanta gente que me procura
O meu vizinho é um velho, acho que tem Alzheimer,
Às vezes ele me encontra no elevador
E conversa como seu eu fosse alguém de sua família
Ele me diz que sempre tenta fazer as coisas certas mas erra
E erra e erra e eu digo: o mundo é assim
A gente faz uma coisa num cenário mas o cenário muda
O que importa é fazer a coisa certa, entendeu meu avô?
Não se deve mentir pra crianças
E pra velhos com Alzheimer? Minto e faço o jogo dele
Sou seu neto e dou conselhos
E saio do elevador e erro, volto a errar.
É estranho esse afeto que conseguimos por acaso
Por um erro, o velho se engana e me ama
Como se eu fosse um dos seus, e um dos mais queridos
Com quem ele se abre.
É com você mesmo que estou falando,
Você sabe, né?
Às vezes parece que você queria ser transparente
E densa, leve e triste como quem anda
Com o coração exposto e eu me pergunto
O que fazer com tanta delicadeza?
Não posso errar, não neste ano.
E se você tiver me procurado porque está perdida
Sem saber o que fazer
E por alguma razão maluca muita gente acha
Que eu tenho as respostas
Outro dia, um aluno me parou no corredor
E me disse que queria conversar
Porque se separou, outro dia
Um amigo telefonou pra mim
Porque ia se separar, outro dia minha amiga
Me chamou, porque tinha se separado
Ela queria que eu conversasse sobre a questão
- será que estamos condenados a ficar sozinhos?
Acho possível, pelo menos minha solidão agora
Pesa como uma condenação
Eu não posso te mostrar esse poema
Prosaico e confessional, então fico errando
Nas entrelinhas. Você não sabe
Que é com você, e nem vai ler
Provavelmente.
Agora, minha ex-mulher que finalmente virou minha amiga
Também pede que eu converse com ela
Ela está em crise, eu disse pra ela investir em alguma forma de arte
Fotografia, acho que todos deviam fazer arte,
E dou pra ela um livro, Sidharta do Herman Hesse
E fora de moda mas eu intuí que ia ser legal pra ela.
E ela me mandou um email dizendo
Que sou uma pessoa ótima e mereço ser feliz
Antes de nos separarmos ela me disse que meu sangue não presta
E que não seria possível a felicidade ao meu lado.
E se for verdade, moça?
Só consigo dormir quando estou extremamente cansado
E os dias têm sido lentos
Como um pesadelo.
Outra pessoa me procurou em crise
Ajudei com meus conselhos e poemas
Todo um ciclo de poemas sobre o girassol
Talvez na cabeça das pessoas alguém que transmite tanta calma
É o que Vavy me disse, não é questão do conteúdo do que digo
Mas eu acalmo as pessoas, por isso elas me procuram
E quem torna sereno deve ser sereno também,
Mas a dedução é errada, só consigo dormir
Quando estou profundamente cansado
E a beleza do céu me encanta e decepciona porque vira moldura
Pra letreiro de supermercado.
Não posso mais errar, neste ano não posso
Já chequei ao meu limite há uns meses atrás
Posso dizer que conheci o inferno
E ainda o carrego comigo como uma névoa cobrindo
O dia, cobrindo o seu sorriso
Fiquei olhando de perfil, você linda
E se o que você quer for mais um tipo de ajuda
Você precisa se acalmar, parece meio triste e sem saber
Aonde ir. E, convenhamos, no meio destes porcos
A coisa fica difícil.
E se o seu afeto for como o do velho
Que me elege seu neto no elevador porque precisa que o neto
Seja a primeira pessoa que ele encontre,
Se o seu afeto for dessas pessoas que esperam algo
Um amigo me disse: “você sempre tem as palavras certas”.
Isso é pros outros, pra meu uso pessoal
Erro entre as palavras e por exemplo não sei mais
Se na verdade sou eu que gostaria de ser transparente
Mas ando com o coração exposto e disse isso sobre você,
O que faz de mim um sujeito estranho
Meu coração anarquista, um sujeito esquisito,
Um cara estranho (você usou essas palavras
Três vezes na sua mensagem) e não posso errar
Não posso errar com você e não posso errar e ponto.
E se o que você quiser for um pouco de calma e orientação
E sem querer você moveu a alma de um cara solitário
Que mal distingue as coisas porque não dorme direito
O afeto do velho, os pedidos de conselhos de amigo
A constatação da minha ex, dessas coisas não me queixo
Seria mesquinho. Mas é que quando eu estava no mercado
No ato banal de comprar limões pensei em você
No seu sorriso e no porquê este ano não acaba logo.
Nada vai acontecer e parece que
De qualquer maneira
Continuo errando.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Sobre o milagre

O vento na praça parece querer derrubar tudo. Eu me sento sozinho e peço minha cerveja. Vejo o grupo de amigos logo à minha frente, sentados em outra mesa, ficam sacaneando a banda que está tocando. É mesmo uma banda meio nada a ver que imita música cubana. E, entre os amigos, alguns deles serão os próximos a tocar. Eles são bem arrogantes, é o que parece, ficam passando o som por mais de um tempo sem fim.
Mesmo assim é a eles que brindo, silenciosamente e sozinho. Brindo porque eles são amigos, brindo porque as meninas são bonitas, brindo porque eles estão bêbados, brindo porque isso é uma noite a mais. E que motivo a mais seria necessário?

O vento forte realmente aconteceu, mas foi aqui introduzido porque estou falando de milagre. Os idiotas pensam que milagre é fazer vinho de água: estes nada veriam, mesmo que o sol caísse sobre suas cabeças. Milagre é o vento que passa e derruba copos de plástico no chão e tudo no fim fica bem, o garçom vem e põe tudo em ordem.
E nós passamos como traços que logo desparecem.

Isto que escrevo agora é sobre uma simplicidade que vivo procurando, depois de uma música meu irmão me mostrou Be a simple man,
É uma música fácil, mas a facilidade definitivamente não é pra qualquer um.
Acho que nem eu nem ele ainda somos simples e isto é grave. Tão grave que dá nas pessoas a impressão de que somos pesados,mas já somos leves. Nada nos mudará

Para pior.Acredito no que virá, mesmo que seja uma aposta insana.
Derrotada, como uma música meio nada a ver. Aposto no milagre, simples, da vida nova que vem, sempre. Toda vida nova é um milagre, um milagre só por ser nova,
Em sua simplicidade. Os outros não precisam saber. A vida não precisa mudar. Mas o milagre está aí, pra quem quiser ver. Não precisa explicação.

Mesmo assim, seguiremos esperando o dia, aquele dia em que o vento virá de vez
E derrubará esta coisa toda. Quando o milagre será completo.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Meus amigos



Meus amigos, alegria
Em desespero, festa
Pela falta de motivo
De festejar – felicidade
Como desafio e provocação
Arrancada à fórceps
Dos pesadelos suicidas.

Meus amigos, como vocês serão
Sóbrios? Não sei, não quero saber
E tenho raiva de quem sabe.

Meus amigos, beber
Até cair no meio do caminho
Como as pedras
Chutadas pelo poeta.

Meus amigos, tudo
Deu em nada
Menos ainda
Quase nada: sempre resta
Alguma coisa, um vestígio
Dos projetos inconcluídos
E o amor, sempre,
Será aquele prato
Servido frio.

Meus amigos não são
O áspero edifício, menos
Ainda, o muro:
A rachadura, a fresta
A goteira, o terreno baldio.
Não são também o asfalto,
O caminho: o interstício
Entre a sola do sapato e o chão
O vazio que ressoa
Uma despedida e um sopro
No coração.

Meus amigos, sem nome
Próprio, o que pulsa
É o que há
De anônimo em tudo,
Espuma, superfície fina
Do oceano, da vida
A qualquer coisa
E o quase nada, o nunca
Serão ninguém, a falta
De rumo, o que se define
Pelo que se não é.

Meus amigos, cabelos azuis
E o fogo-fátuo
E as pedras agudas
Polidas na frieza
Do rio
E o merecido esquecimento.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

E tudo mais jogo num verso, intitulado mal secreto

Minha ex-mulher e minha futura namorada estão conversando. O sonho é meu e dele não participo. Please see if she's wearing a coat so warm to keep her from the howlin' winds, este seria um primeiro fundo musical. Não pelo frio, desconhecido neste norte, mas pelo espírito. Só não sei quem leva e quem recebe a mensagem – tem um caminho mais fácil, mas quero evitar a ingratidão. I gave her my heart, but she wanted my soul. Já isto, sei bem o que significa. Minha ex-mulher e minha futura namorada estão conversando, felizmente elas não falam de mim. Existem tantas coisas urgentes no mundo. A cada minuto que passa há um rumor a menos, uma língua a menos, menos palavras para multiplicar as inúmeras formas da dor e da alegria. O Progresso é um Moloch Estatístico para quem toda vida é perda (de tempo). É um alívio estar ausente entre mulheres de amplos horizontes: um norte além dos marcos patrióticos da bandeira habitada por uma sombra devoradora de culturas, por colecionadores de palavras exóticos que zombam do índio condenado a usar ornamentos de pena de galinha e a pintar o corpo com pincel atômico. Onde elas estarão no coração do Brasil, onde o Brasil estará em seus corações, no sonho sem coração de um sujeito sem norte? Elas conversam, o sonho é delas, do meu sonho não participo.Lentamente, vou sumindo do meu sonho, como todo dramaturgo sou desnecessário quando o cenário está montado. Elas estão se entendendo, apesar da diferença de densidade entre o que passou, o real irremediável, e o que virá. O futuro é uma promessa, um sonho de que não participo. Peço à minha ex-mulher e minha futura namorada que não deixem o sonho ser assassinado pelo vento gelado, pela tempestade do real. Tudo o que ouço é um rumor, uma língua que não entendo. Elas parecem se entender, mas vão sumindo no horizonte enquanto eu desperto lentamente.

Digital Art 
Wallpaper / Daydreams

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Blues + Lupicínio Rodrigues =

Você tem que entender
É todo um clima criado, não por você,
Que não está procurando nada,
A não ser o caminho de casa.

É toda uma cidade que se prepara
Para uma bela sexta-feira de beijos na praça
E a intervenção divina de uma noite quente
E o som da viola sobre o coreto.

São os casais, é, os casais, como são jovens e belos,
As moças que se arrumam, que se perfumam,
É todo o circo armado para a azaração,
Arte na qual você nunca foi especialista, mas não por querer.

A noite, literalmente quente – é o contrário do que todos afirmam,
É mais fácil dormir sozinho no frio, isso é certo -
Mais a cerveja que você nem pediu
Mas lhe foi oferecida de uma maneira inesperada.
Onde já se viu num show gratuito
Pessoas andando com latinhas geladas em bandejas?
Ah sim, e tem a seleção musical, o repertório,
Você se esforçou muito pra sair de casa, observe bem,
Apesar de, o que parece contraditório, não aguentar mais ficar dentro dela.

O repertório, cantado por Renato Teixeira, ninguém menos,
E o som de uma viola melancólica:
Ele começa cantando de barcas que atravessam o rio Paraguai,
Canta de sabedoria, a merda de uma sabedoria fajuta,
Mas que naquele clima convence quase até as lágrimas.
Aí vem o momento mais perigoso, aquela música da amora,
Aquela que atravessa o seu coração como um punhal,
Que você sempre quis cantar pra todas as meninas
pelas quais se apaixonou: as três paixões federais,
as quinze estaduais e as quinze mil municipais.

Mas tudo isso nada seria sem outra pessoa.
Afinal você tinha planejado sair sozinho, lembre-se disso.
Você está lá na sua, e chega a moça meiga e sua irmã mais nova,
Moça que você conheceu a pouco tempo, poucos dias,
Esse detalhe é importante, porque sempre tem o encanto inicial
Dos primeiros dias quando você conhece alguém.
Uma pessoa que tem tudo para ser uma boa amiga, mas que
Numa hora dessas...
Diga a verdade: se você estivesse solteiro você gostaria de
Fazer coisas com a moça,
Não, mesmo casado, você gostaria, não seja hipócrita.
Mas você ainda acha a fidelidade importante,
Você se lembra que não trocaria sua amada por ninguém,
Nem mesmo numa noite como essa.
E que isso é ser fiel, querer e mesmo assim não fazer,
E que isso é totalmente absurdo e cristão, mas o amor é absurdo.

Voltando ao clima, bela palavra essa: clima,
É um lance que está no ar, que te envolve,
Que você sente, uma certa tensão no ar, uma espera,
E ao mesmo tempo uma certa disposição, uma facilidade.
E o acaso foi cruel com você:
É no ônibus, numa sala de aula, numa praça lotada de gente,
É nesses lugares que você encontra a moça sem combinar nada.
E ela e a irmã são muito simpáticas com você,
E depois ficam cochichando e dando risadinhas,
E tudo que você diz é legal, como você é um cara sensível
E inteligente, tudo elas acham graça, comovente.
Os outros caras em volta olham pra elas,
Não entendem, parecem se perguntar,
Por que essa Mané não pega a menina?
Pior, na saída, você ouve um cara dizendo
Que gostosa!
Nessa hora quase ajoelha, “por favor, fique com ela,
você vai me livrar dessa?”

Mas você é forte, vai resistir,
Inventa recursos:

Isso é fantasia da minha cabeça (o mais fraco, você sabe que é mentira)

Tem conhecidos na praça (o mais covarde)

Ela é ex-namorada do meu amigo (o mais cruel e sensato)

Eu vou para casa, ouço um blues daqueles,
If I have been a bad boy baby I declare I’ll change my ways
Lord have mercy on me
Sento diante do computador, escrevo uma coisa parecida com poesia,
Mando aos meus amigos por e-mail,
Solidariedade nessas horas é fundamental,
Eles não mostrarão isso para suas consortes,
Mulher é foda, não entende nada,
Tomo meu remédio e vou dormir (o definitivo)

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Dia mundial contra os carros

A onça paluá furou os olhos com lanternas, bebeu gasolina e corre encantada pelo mundo enorme. Na arte de seguir, fazer sangrar a rês nas unhas: Ponta-de-lança; Verde-esmeralda; Vermelho-sangue; Branco-lápide; Azul terrível!

Rajadas de nomes de cidades, frutas e pedras nos olhos marejados dos cansados pangarés. A luz gritante bate nos dentes da onça veloz, rebate nos olhos pobres.

Ressentimento, ponto cego no espelho retrovisor: o que ficou para trás ainda visível. O fim daquela ansiedade doida: início de milênio, promissor ser perseguido por ninguém, correr e não sair do lugar.

O menino ficou irreconhecível com a cara macerada. Não pôde ser reconstituído pelos legistas. Nem pela poesia. Desde então um pesadelo na cabeça: o menino escondido num lençol e duas botas pretas.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Poesia de domingo

Num dia de luz inclinada, meio amarela, um calor suave de um sol quase ausente.

Paro pra abastecer o carro e a frentista me pergunta se fui eu o sujeito que apareceu hoje no jornal.
Não sei que sujeito é esse. Ela me explica: um músico qualquer.

É a segunda vez que me confundem com isso. Em João Pessoa um garçom me perguntou se eu era um
cantor de rock. Sei lá, queria ser, se bem que não, músico talvez, cantor de rock não, não do jeito que o garçom falou.

Hoje é sair com minha mãe e meu irmão e durante o almoço minha mãe calada. Algumas vezes perguntamos
se ela está bem. Ela é sempre assim, olhando pra baixo, olhando pra qualquer coisa. Eu falo com meu irmão que
queria comprar pra ele o livro Os vagabundos iluminados, que é sobre a procura da Iluminação em viagens de trem e
longas viagens solitárias em montanhas. Digo ao meu irmão que isso apenas é possível nos Estados Unidos onde, ao menos segundo o mito,
e mito não é o mesmo que mentira, um andarilho sempre encontrará alguém que o ajude.
Digo ao meu irmão que no Brasil um vagabundo
iluminado se tornaria, inevitavelmente, um mendigo isolado, olhando pros lados e pra baixo como quem foge. Aqui só
tem espaço pra turmas e pra alegria desesperada.Meu irmão discorda, sobre
a questão de virar mendigo, ele me diz que Deus sempre vai arrumar alguém, um anjo qualquer, pra te ajudar no caminho
(minha mãe, ainda calada).

Paramos numa farmácia. Eu e meu irmão ficamos no carro, ele me pergunta se já estou melhor, depois da separação,
se já esqueci, respondo que tem horas em que esqueço e horas em que me lembro, penso, não falo com ele, se isso quer
dizer que esqueci ou não. Eu ia dizer pra ele que o mais difícil não é me separar dela é me separar das coisas que ouvi, mas
minha mãe volta ao carro e não falo sobre o assunto, ela não vai querer ouvir, porque o que ouvi é uma acusação contra várias
gerações, aquele lance grego de miasma de sangue familiar que não presta.
O que falo com meu irmão é que estou com muita preguiça de parecer interessante e as mulheres em geral ficam esperando isso,
não que você seja interessante, não sou interessante, mas que você mostre que está se esforçando em parecer interessante.

Depois disso, sigo sozinho, mas não posso voltar pra casa.
Dou um volta um pouco maior de carro por Brasília,
escolho um caminho que me permita ver o lago.
No caminho ouço aquela música do Bob Dylan, most of the time she ain’t even in my mind, I wouldn’t know her if I saw her she’s
that far behind.
Most of the time.

Não disse pro meu irmão, mas pensei em como eu gostaria que o poema fosse um tipo de oração,
comprei um livro sobre sufismo e imaginação criativa. E no sufismo a poesia é uma oração e só há oração com poesia,
mas poesia cheia de prosaísmo, o prosaísmo da vida, os problemas singulares comuns, que é como penso em deus. Não
alguém que faz planos pra gente, mas como o puro prosaísmo da vida: uma luz meio amarelada, um sol quase ausente em seu
calor frio, o som ligado, um pouco de vagabundagem. Não uma coisa inteira, plena, mas aquilo que foi quebrado, os estilhaços,
as rachaduras no muro (caso contrário, não veríamos a luz) e isso no momento em que toca aquela outra música
Everything is broken.

E tem dias em que a poesia bate na sua cara, é difícil de explicar, tem dias em que um prosaísmo mais intenso quase vira
poesia e você se pega pensando em como gostaria de ser um poeta melhor pra dizer as coisas necessárias.

sábado, 4 de setembro de 2010

Num show da banda Rioclaro



Por Daniel faria

E pensar que ontem mesmo você gostaria de dormir por 5 meses, acordar em outro ano, qualquer ano, menos este. Ajustar o despertador para depois dos fogos de artifício e das promessas, as mesmas furadas de sempre. Mas, acordar num momento diferente, mesmo que por um mero ajuste no calendário, escrevendo bobagens como:


Cínicos, desossados

Trincados, traídos

Pelo destino

Rivotril e ritalina,

Todo efeito

Colateral é benefício.

Ela veio e sugou

O que restava de energia

Para o ano que passa

O presente mês, que assassina.

Enquanto hoje, o sol vai baixando, as nuvens de dourado a vermelho, a música sopra o espaço que se infla como um balão. Há reflexos na água, bronze de fim de tarde. Duas garotinhas dançam no campo de futebol, o gramado verde, os vestidos branco e vermelho contra a encosta matizada de verde a cinzanegro. Depois de embaralhar a consciência, as coisas se misturam, as cores, a música não vem do palco em que meu irmão toca, salta do lago depois de um mergulho, música viscosa que preenche o espaço como um aquário. Não sei bem quando, meu irmão vem e me pergunta se estou acordado. Desperto, ele quis dizer, talvez. Iluminado. Não neste momento, agora estou apenas sentindo os impactos do mundo como se eu fosse uma engrenagem a mais. A alegria entrando pelo ouvido, passando do coração aos olhos, às cores, ao som, ao espaço. Você é mesmo um otário, querer dormir por 5 meses. Uma mulher linda, Namara, nome sonoro (“aura amara branqueia os bosques carcome a cor da espessa folhagem” etc), um sorriso. E isso basta, um nome e um sorriso contra a música, o lago, a encosta e as cores mutantes de um céu imprevisível. Ela deve ter achado esquisito, você só querer saber o nome dela. Mas, sabe o que é Namara? Ontem eu estava numa onda assim:

O que resta

Do desejo e da ingenuidade

É um velho carro branco.

O que resta

Do desejo e da ingenuidade

É a esperança

De morrer cedo.

O que resta

Do desejo e da ingenuidade

É um aceno do silêncio.

O que resta

Do desejo e da ingenuidade

É se despedir do calendário.

Dormir por 5 meses

E acordar no reveillon –

Sempre.

O que resta

Do desejo e do calendário

É a ingenuidade de uma conversa

Imaginária, jamais iniciada.

“A barra é pesada

A solidão reconhece sua sombra

No espelho

Mereceríamos mais

Do que a morte?

Quem sabe, daqui

A 5 meses”

E aqui, neste momento, quero ficar desconectado do mundo, meio assim, à parte. É impressionante como, desligado, você sente outra solidariedade com a vida, com os desconhecidos, com a música, com tudo o que não foi feito pra você. Um esquisito num mundo esquisito e alegre. O egoísmo vai sumindo, não sem antes te assustar, como se sua sombra fosse mais densa que você e te ameaçasse, um soco na boca do estômago. Mas o egoísmo some, enquanto a música vai chegando ao fim, tudo vai escurecendo e, num último acorde, o céu se cristaliza, como um sorriso. Amanhã estarei disposto, pronto pra acordar, meu irmão.

Daniel é irmão do baixista Renato Faria